FTP absoluto x W/kg: qual número realmente importa no ciclismo?

Quando um ciclista diz “meu FTP é 300 watts”, esse número sozinho não conta toda a história. Dois atletas podem ter exatamente o mesmo FTP e apresentar desempenhos bastante diferentes dependendo do peso corporal, do terreno, da aerodinâmica e das características da prova. Por isso, para interpretar corretamente a potência no ciclismo, é importante entender a diferença entre FTP absoluto e potência relativa (W/kg).

Cássia Magoga

9/14/20263 min read

Escreva aqui o conteúdo do postO que é FTP absoluto?

O Functional Threshold Power (FTP) é uma estimativa da maior potência que um ciclista consegue sustentar em um esforço prolongado, sendo muito utilizado para prescrição e definição de zonas de treinamento.

O FTP absoluto é simplesmente a potência expressa em watts.

Por exemplo:

Ciclista A: FTP de 300 W e 60 kg
Ciclista B: FTP de 300 W e 80 kg

Olhando apenas para o FTP absoluto, os dois possuem a mesma potência. Mas quando relacionamos essa potência ao peso corporal, a diferença aparece.

O que é W/kg?

W/kg significa watts por quilograma e representa a potência produzida em relação à massa corporal.

A conta é simples:

W/kg = potência ÷ peso corporal

No exemplo anterior:

Ciclista A: 300 ÷ 60 = 5,0 W/kg
Ciclista B: 300 ÷ 80 = 3,75 W/kg

Os dois produzem 300 watts, mas o primeiro atleta produz muito mais potência para cada quilograma de massa corporal.

E isso se torna especialmente importante quando a gravidade entra na equação.

Na subida, W/kg ganha importância

Em subidas mais longas e inclinadas, a relação entre potência e massa corporal tem grande influência sobre a velocidade.

Para elevar ciclista e bicicleta contra a gravidade, é necessário realizar trabalho proporcional à massa que está sendo deslocada. Por isso, em condições semelhantes, um atleta capaz de produzir mais watts para cada quilograma tende a apresentar vantagem nas subidas.

Isso ajuda a explicar por que ciclistas muito leves podem subir extremamente rápido mesmo apresentando um FTP absoluto menor do que atletas maiores.

Mas existe um detalhe importante: não é apenas o peso corporal que sobe a montanha.

Bike, sapatilhas, capacete, caramanholas e equipamentos também precisam ser transportados. Para análises mais precisas de desempenho em subida, portanto, considerar a massa total do sistema pode ser mais adequado do que observar apenas o peso do atleta.

E no plano?

No terreno plano, a situação muda.

Em velocidades mais altas, a resistência aerodinâmica passa a representar grande parte da resistência que o ciclista precisa vencer. Nesse cenário, potência absoluta, posição aerodinâmica, área frontal e coeficiente de arrasto ganham muita importância.

Isso significa que um atleta com FTP de 350 W e 4,4 W/kg pode ser muito mais rápido no plano do que alguém com 300 W e 5,0 W/kg, dependendo principalmente da aerodinâmica e das condições da prova.

Por isso, olhar somente para W/kg também pode levar a conclusões erradas.

Então, qual é mais importante?

Depende do objetivo.

Em subidas: W/kg tende a ganhar importância.
No plano e em contrarrelógios: potência absoluta e aerodinâmica ganham peso maior.
Em provas com terreno variado: é necessário analisar o conjunto.

Além disso, desempenho não é determinado apenas pelo FTP. Capacidade de repetir esforços, VO₂máx, potência anaeróbia, resistência à fadiga, eficiência, aerodinâmica e estratégia também interferem no resultado.

É justamente por isso que um único número nunca deve definir um ciclista.

Referências

Allen H, Coggan A, McGregor S. Training and Racing with a Power Meter. 3ª ed. VeloPress; 2019.

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Faria EW, Parker DL, Faria IE. The Science of Cycling: Factors Affecting Performance — Part 2. Sports Medicine. 2005;35(4):313–337.